sexta-feira, 21 de março de 2008

MEMÓRIAS DA PÁSCOA

Compasso de Rande, anos 20 do Século XX – ao tempo do Padre Augusto
(foto da colecção de A. P. e inserta no livro “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”)


Chegada a época pascal, da semana maior do ano cristão, apraz recordar algo do que identifica a memória local, quanto a costumes de recuadas afeições na alma popular. Sem se pretender inventar nada, que as tradições vêm de tempos remotos – e não com menos de qualquer uma dúzia de anos…

Procurando assim transmitir mais uns laivos de carácter apologista, a reminiscências histórico-etnográficas do passado conterrâneo, de temática quanto possível em conformidade ao calendário, chega a vez de dedicar umas linhas evocativas de algumas práticas tradicionais antepassadas relativas à Páscoa, como festa anual de semblante especial no imaginário popular, com saliência ao Folar e Compasso Pascal.

Em eras recuadas a quadra consubstanciava certos hábitos, de ritual, no povo da nossa zona. Entre os quais se pode aludir o caso de ser costume nesta região fazer-se limpezas gerais às casas pela Páscoa, devido à festividade coincidir em tempo primaveril, convidativo a arejar o mofo provocado pela humidade do inverno ultrapassado. Sem se dissociar, contudo, o respeito devido à vinda da Cruz Paroquial às casas, que eram preparadas a preceito. Por isso mesmo, entre as limpezas, também era usual esfregar-se o soalho, em árdua tarefa a que as mulheres se dedicavam, ajoelhadas dentro de “caixoto” apropriado a resguardar os joelhos, enquanto passavam na madeira uma escova-esfregona, embebida em água através de balde de folheta esmaltada ali à mão, raspando as tábuas ensaboadas, através da esfregona agarrada a duas mãos na propositada pega, tal o esforço necessário, de cócoras; sendo depois a água que não escorrera do soalho, pelas friestas, apanhada com pano absorvente, torcido de permeio.

Ao mesmo tempo que era função masculina, para arejar o ambiente, dar então uma anual caiadela às paredes, sobre o granito exterior branqueado de cal, contrastando ao rodapé pintado de preto, como era costume nas habitações típicas; em que ainda os antigos tapamentos de divisórias interiores recebiam de igual modo nova demão de caliça; e quando as portadas e até alguns dos “trastes” da mobília tinham a tinta estalada também lhes eram aplicadas umas pinceladas na ocasião, usualmente de azul anilado.

No ano em que pela primeira vez uma mulher foi “Juiz da Cruz” em Rande, no Compasso de 1997.
(foto da colecção de A. P. e integrante do livro “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”)

Chegado o dia, com os sinos paroquiais a repenicarem, quase a par com foguetes atroando os ares do horizonte e a campainha anunciadora do Compasso a ouvir-se nos arredores, era altura do folar – algo esperado sobretudo pelas crianças. Havendo o antigo, de âmago gastronómico, como posteriormente a rosca grande de prenda (oferta mais tarde alterada por peça de roupa, brinquedos ou utilidades). Ao passo que o dia produzia um sentido anímico diferente nas gentes locais, num manancial de tradições.

Neste ponto, como para ordenar as partes (embora alterando a feição destas notas de material sobejante ao que escrevemos anteriormente em livro), transcreve-se, agora em forma adaptada, juntando com partes antes inéditas, pequenas parcelas distintas, transportadas juntas para aqui, com pequenos trechos do capítulo da Memória Etnográfica inserta no referido livro “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”, em alusão ao tema:

Folar antigo da Páscoa era um bolo de pão de massa de farinha milha, feito em forno doméstico, com um ovo cozido no meio, sobre o qual havia cobertura em forma apropriada ao revestimento do mesmo ovo, como que a dar efeito côncavo de tampa em massa de pão também... Enquanto o sucessor folar de prenda, posteriormente entrado nos costumes, consistia numa grande rosca (regueifa de trigo), com enfeites de massa sobreposta, que era dada aos afilhados na manhã do dia de Páscoa. Para gáudio da pequenada que, quantas vezes, passava a manhã a acompanhar o Compasso com a rosca metida pela cabeça a tiracolo, antes de ser servida à mesa no almoço da festa de ano – repasto farto que, como tal, além das batatas assadas do forno e arroz alourado, metia cabrito como prato forte, ou ovelha, galo, coelho e outras carnes, sem faltar o salpicão às rodelas na travessa do arroz.

Páscoa de 1998 – quando o Compasso foi realizado através do Grupo Coral de S. Tiago de Rande
(fotos da colecção particular de A. P. e destinada a um futuro livro…)


Na visita do pároco da freguesia e da respectiva cruz paroquial, toda enfeitada, o chefe de família punha na mesa alguns ovos, para folar do padre, que eram recolhidos por um dos membros do Compasso, homem que andava com a saca. O qual de permeio, com ajudas de outros, tinha de quando em vez que mandar à residência do abade despejar cestas com os ovos angariados. Onde o folar fosse maior que o normal era deitado um ou mais foguetes, enquanto a banda acompanhante executava uma das peças do seu reportório, a ajudar ao ambiente festivo, abrilhantado por tradicional tapete de flores ou simples ajunto de pétalas de flores espalhadas no chão, a assinalar o local da entrada.

Todas as despesas do Compasso, passados os antigos tempos dos juízes da Comissão do Subsino, eram por conta do juiz da cruz, incluindo o almoço a toda a comitiva, com excepção de algum ”fogo” pois que era costume haverem apaixonados em marcar desse modo a chegada da Visita, em cujas casas eram deitadas dúzias de foguetes por promessa do chefe de família ou apenas por sua vontade entusiasta.
Algumas destas tradições ainda se têm mantido, em menor escala e com diferenças...


© Armando Pinto
Bibliografia: “Memorial Histórico…”, mais crónica no jornal “Semanário de Felgueiras” e parte de um texto de futuro livro…

1 comentário:

Anónimo disse...

Um Bem-Haja a estas recordações e obvios ensinamentos. Para continuar. Espera-se que não seja como é dito num dos comentários da noite da dança.