Criada em 1939, sob os desígnios corporativistas do Estado Novo, a associação completa 70anos no próximo dia 26 de Abril. Sendo uma respeitada instituição – que ao longo de boa parte do século XX se destacou na acção cultural, desportiva, de assistência médica e de previdência social - , nos últimos anos as suas múltiplas iniciativas relançaram-se para lugar elevado a nível concelhio.
Ora em sintonia com as várias valências da Casa, ora também em colaboração com as entidades com as quais tem, protocolos, ao todo, são mais de cem colaboradores os que a associação conta regularmente: dois grupos de teatros, folclore, grupo de fados, duas escolas de dança, literatura, exposições, concertos, homenagens, debate de ideias, cicloturismo e, entre outros eventos, a colaboração com as Juntas de Rande, Pedreira e Sernande na realização do Carnaval da Longra, da trimestral Feira Popular e Tradicional e das comemorações da Vila. A meta seguinte da associação, já projectada, é a recuperação da vertente social. Mas afinal nem tudo são rosas…
Os actuais dirigentes – empossados há dois anos, cujo mandato é de três – queixam-se da falta de apoios oficiais; que Casa ainda não foi ressarcida pela cedência gratuita do terreno para a construção do Centro de Saúde, parcela que era da C.P.L. Por outro lado, elogiam a envolvência assídua dos mais de cem agentes culturais; só assim lhes é possível contornar dificuldades.
A nossa redacção quis conhecer os anseios e projectos desta Casa. Adão Inácio Coelho (A.I.C.) e Gonçalo Magalhães (G.M), presidentes da direcção e da AG, respectivamente, concederam-nos a presente entrevista.
Pelos vistos, tem sido positivo o balanço das actividades da Casa
AIC – é extremamente positivo. Propusemo-nos logo de início, a relançar a associação no panorama concelhio, na defesa e promoção dos costumes e tradições. Isso passou por uma reorganização de processos e da estrutura da associação, com critérios assentes no rigor e na disciplina organizacional. Os resultados são visíveis. Mas isso não invalida que queiramos mais e melhor.
Como foi feita essa reorganização de processos da estrutura da associação?
AIC – Melhorámos a imagem da Casa, que não era dignificada pelo aspecto do edifício. Como tal, refrescámos algumas divisões, ajustámos os espaços às necessidades; recuperámos o salão nobre; mudámos a localização e o aspecto de uma sala museológica; realizámos obras no bar; criámos uma biblioteca para mostrar um espólio bibliográfico que, até então, estava acondicionado em caixas. Instalámos internet com acesso gratuito; na sala de espectáculos, fizemos alterações, já que num passado recente, tinham feito modificações que atentavam contra a sua estética.
A casa rege-se por uma estrutura comum ou por secções?
AIC – até ao início do nosso mandato, vigorava um modelo de autogestão das várias valências baseado no seccionismo, em que ninguém assumia as despesas correntes, o que colocava em perigo a viabilidade financeira da Casa. Hoje, todas as valências (teatro, folclore, etc…) têm coordenação, apresentam suas propostas em reunião de órgãos sociais e as mesmas são aceites. Não cortámos as pernas a ninguém. Hoje, temos uma estrutura comum, com contabilidade e organização administrativa rigorosas.

Vocês têm apostado numa filosofia de parcerias…
GM – e tem sido muito importante! Baseia-se na entreajuda e solidariedade das partes, porque, sozinhos, não conseguiríamos fazer o que temos feito. Foi através do protocolo com a Associação José Afonso que conseguimos trazer à nossa Casa, a Felgueiras, artistas como por exemplo, Vitorino, Carlos Alberto Moniz, Manuel Freire, Francisco Fanhais, os “Couple-Coffee”, os “Erva de Cheiro”, os “Cantaremos Adriano”. Tudo a custos muito reduzidos. Os eventos de homenagem de Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira levaram o nome da Longra a todo o país, falados até na TV. Outro espectáculo de rara beleza foi a homenagem ao musicólogo Padre Luís Rodrigues, natural de Rande e destacado musicólogo português. Temos contado também com a colaboração da Academia de Dança de Felgueiras, o Conservatório de Música de Felgueiras, dos grupos de dança da professora Cristina Lopes, da Associação de Cicloturistas de Felgueiras (com sede na C.P.L), do Teatro PésnaLua, que ensaia e actua aqui. A organização, este ano, do III Encontro de Teatro – que contou com a colaboração do Teatro PésnaLua, do Grupo da Paróquia da Pedreira e das Escolas D.Manuel Faria e Sousa e Secundária de Felgueiras -, foi uma experiência gratificante, que mobilizou muita gente, especialmente as escolas envolvidas. Aderimos a Inatel e, por isso, temos beneficiado de algum apoio, inclusive a nível de cinema. Recentemente celebrámos um protocolo com a Associação de Naturais e Amigos de Chancungo, da Guiné, a favor da qual acabamos de lançar uma campanha de bens e equipamentos, destinados ás escolas daquela cidade.
Estão a falar, praticamente, de apoios logísticos. E os financeiros?
G.M – Financeiramente, só temos contado com pequenos apoios. O Ministério da Cultura comunicou-nos que em 2008 não nos daria subsidio, não por falta de mérito da Casa, mas pelas drásticas restrições do Governo. As Juntas de Rande, Sernande e Pedreira vão fazendo o que podem. A Câmara apenas subsidia a parte do folclore, no âmbito dos apoios generalizados oferecidos aos ranchos do concelho. E muito pouco, diga-se! Uma insignificância face à dimensão da obra feita. Esperávamos muito mais da autarquia. Estamos convictos que se estivéssemos em alguns concelhos vizinhos teríamos beneficiado muito mais. Quanto custaria toda esta actividade a uma empresa municipal? Muito naturalmente. Mas o nosso Orçamento ronda os 26 mil euros. Vamos contando com os patrocínios pontuais do sector empresarial. Sem desconsiderar outras empresas, não pudemos de deixar de referir a Caixa Agrícola.
Qual o vosso programa cultural para 2009?
AIC- Em traços gerais (porque ainda estamos a fazer diligencias) na linha do que vem sendo feito nos dois anos transactos. Vamos dar especial atenção as comemorações do 70º aniversário da Associação bem como ao 30º aniversário da morte do Padre Luís Rodrigues. Vamos manter o Encontro de Teatro, o Festival de folclore, sem esquecer as diversas festas que temos vindo a fazer, para alem do Carnaval, das feiras Tradicionais e da comemoração do 7º aniversário da Vila da Longra, iniciativas em parceria com as três Juntas.
Este é um património grande e valioso mas a precisar de obras…
GM- Sim. Esta casa precisa de obras infra-estruturais de fundo, mas tal não será possível sem a ajudas das entidades públicas e da própria população. Não pudemos almejar uma obra que resolva, de uma só vez, todas as necessidades do edifício. A prioridade irá para a melhoria do conforto das suas divisões, em especial da sala de espectáculos, bem como modernização dos equipamentos e meios técnicos da Casa, como a biblioteca, os camarins, sala para guardar instrumentos e guarda-roupa, etc. Entretanto vamos fazendo pequenas remodelações, sabe Deus com que sacrifício. A última intervenção de fundo foi a 40 anos.
No o terreno que a CPL cedeu para a construção do centro de saúde (inaugurado em 2004) não vos trouxe contrapartidas financeiras ou infra-estruturais?
GM- A Casa ainda não ganhou nada com isso, monetária ou materialmente. Houve um acordo de cedência, via Junta de Rande, no pressuposto de que existiria uma contrapartida: a construção, pela câmara, de um pavilhão gimnodesportivo, o qual ficaria sobe a administração da Casa do Povo. A ideia até podia ser interessante, mas certo é que, até hoje, o pavilhão nunca chegou a ser feito, e o terreno onde se previa a sua construção foi recentemente expropriado pelas “ Estradas de Portugal”, para a passagem da variante à EN207. Penso que, na altura, deveria ter sido melhor acautelado, preto no branco, as condições e os timings para a sua concretização.
Pensão ainda ser ressarcida por esta cedência?
GM – estamos convictos de que chegaremos a uma plataforma de entendimento. A autarquia não será insensível, até porque teve necessidade de adquirir, pagando, terrenos para a construção de outros equipamentos semelhantes, como foi o caso de Jugueiros, de Regilde, e creio, em Barrosas. Em Macieira da Lixa, a Câmara financiou as obras no edifício da nossa congénere de Marco de Simães, como contrapartida pela cedência do espaço destinado àquele Centro de Saúde. Certo é que, no nosso caso, o terreno ainda está registado em nome da Casa do Povo e, obviamente, no caso do Centro de Saúde. Por qualquer motivo, mudar para outro local, o equipamento terá de reverter a nosso favor. Torna-se premente que sejamos ressarcidos pela cedência do terreno, tanto mais que temos um projecto social para a Vila da Longra.
Podem-nos falar desse projecto?
GM – já fazemos parte da Rede Social de Felgueiras e já pedimos equiparação a IPSS, cujo despacho da Segurança Social deverá estar para breve. Foi pena que se deixasse caducar esse estatuto, que a Associação já possuiu, o que nos tem obrigado a um série de burocracias.
A Vila da Longra e as freguesias abrangidas estatutariamente – Rande, Pedreira, Sernande, Varziela, Lordelo e Unhão -, carecem de respostas sociais, não só a nível da 3ª idade como no apoio à população mais carenciada. A C.P.L é a entidade melhor posicionada para o efeito, até pela sua tradição de assistência social. Já se perdeu muito tempo sem que nada fosse feito. Certamente que as seis juntas de freguesia do perímetro geográfico da Longra não deixarão de comungar da mesma opinião e possamos fazer um grande equipamento social. A nossa concepção de apoio social é um pouco diferente do convencional. Pretendemos associar as nossas valências culturais a esse tipo de serviços. Queremos que as pessoas se sintam humanizadas, activas e úteis, depois de uma vida de trabalho porque alguns desvios lhes alteraram o trajecto normal das suas vidas